andamos a arquitecturar um cenário perfeito para uma despedida que é inevitável. sera que é assim tão dificil olharmo-nos, olhos nos olhos, e dizermos: acabou?
essa cena vai durar pouco. é assim nesse teu grupo de amigos que chamas sólido. a vida sempre me ensinou que há apenas um ou dois amigos que realmente estão ali porque gostam de nós, que gostam das nossas piadas e que gostam realmente das nossas conversas mesmo que pouco interessantes. todos os outros são estátuas de louvre. e quando isso acabar, contas com a minha presença e, mais do que isso, com a minha leveza, com os meus vestidos de verão esvoaçantes, e com o meu vai ficar tudo bem. mas desta vez não tenho a certeza, porque eu amei-te demais, e não consigo mais estar sempre lá para apenas te servir de consolo.
não há pior sentimento do que aquele em que um dia acordamos e encontramos debaixo da nossa almofada os vestígios de algo que já passou. odeio sentir que abandonei amigos que considerava serem como certos ao longo deste meu percurso. até onde isto me levou?
pior do que a convicção de que estás melhor sozinho, é a convicção de que o outro está melhor sem ti.
por esta hora estou deitada numa toalha a refazer sonhos. confesso que todos os que tinha já expiraram o prazo de validade.
ontem fixei-te nos olhos e reparei que já não tens aquela cor brilhante de sempre. fiquei triste porque achei que serias imortal. o verão tem destas coisas, leva e traz brisas boas.
os rapazes são todos iguais. é um dos clichés que eu gosto mais. acabam sempre por nos inundar com aqueles perfumes sempre doces demais. um perfume de um rapaz torna-se doce demais quando nos fartamos do seu sorriso patético quando acha que disse alguma coisa divertida ou genial. já se sabe, sou uma céptica.
quero que saibas que houve um tempo em que decidi investir em ti e no nosso amor adormecido. embalaste-o sem eu dar por isso e deste-me a dificil tarefa de o acordar. nunca fui capaz e sei que houve uma altura em que percebi que secalhar era mais fácil do que parecia. uma altura em que eu achei que as pessoas não eram quebra-cabeças. até podiam ser, mas eu não queria acreditar nessa tragédia. houve um tempo em que eu passei noites a tentar acordá-lo e agora quero que saibas que já não há mais tempo nenhum. nem para nós nem para o nosso amor que continua tão adormecido como se nunca tivesse sequer vivido. é uma pena, mas já não há nada para nós que valha o esforço.
a minha vida mudou. ontem, quando estava ali à frente daquele cenário de velas e perante uma música belíssima de mãos ao piano, lembrei-me apenas que tu não suportas velas e, se tivesses que colocar uma música para aquele momento, não seria aquela. não imaginei nunca que isto pudesse acontecer, porque achei que seriamos pessoas importantes um para o outro para sempre.

love you
quando me vicio numa coisa é como se perdesse a felicidade no dia se não a tiver ao pé de mim, nem que seja por umas horas. é como uma sede quase infindável daquilo que de certo modo nos consome sem darmos conta. é horrível, alucinante e desejável, não conseguimos controlar aquele formigueiro que se forma nas nossas veias. no entanto, quando um dia acordamos e apercebe-mo-nos de que não precisávamos daquilo para sobreviver, isso, esse momento de certeza, é quase uma perda de sentido, uma apatia consciente, uma desilusão sobre nós mesmos. é triste.