ela tirou todos os maus espíritos de cima, vestiu um vestido cor-de-rosa e chamou um táxi. contou os trocos e enfiou o passaporte na mala, ligou para o seu melhor amigo e despediu-se. amanhã será outro dia, mal ou bem o sol nascerá novamente.
como maior parte das pessoas que ela já conheceu, quer mais do que tem, quer especialmente o que não pode ter, quer especialmente pessoas. e enquanto se decidia se o queria, se iria cometer esse erro, mais um passo um falso, ele decidiu que não a queria. e isso, oh amor, eram os dados que faltavam no problema. passou a desejá-lo de corpo e alma. todas as noites. todos os dias.
sempre foi tão difícil estarmos frente a frente, numa mesa comum e singular sem acabarmos por discutir ou eu ir-me embora por achar a tua conversa desinteressante. a sério que já tentei entender as tuas virtudes, qualidades ou mesmo defeitos, mas nada nos une. esquece.
odeio este sentimento de perda: perda dos dias quentes na praia, dos almoços tardios, da lista de desejos num papel de tabuleiro de café, das limonadas e laranjadas, dos dias inteiros sem horários, do rádio a tocar summertime pela Janis Joplin, dos passeios sem destino, do acordar e saber que ainda falta mais de um mês para abandonar esta realidade. summertime and the livin’ is easy
ainda me custa acreditar que crescemos e com o tempo a amizade foi-se perdendo um bocado na rotina. a vida aqui continua complicada. tenho as coisas da escola para acabar, a roupa espalhada pela cama todas as noites antes de dormir, as unhas para pintar de novo e mil e uma coisas para procurar porque o avô guardou e já não sabe onde estão.
às vezes com a rotina do dia não me lembro bem que nos fomos afastando, mas à noite vêm-me umas saudades que nem imaginas. "as piores saudades são as que temos das pessoas com quem estamos todos os dias", foste tu que me foste ensinando isso ao longo deste tempo e são sempre as boas lembranças que me deixam desesperada. não poder repetir uma coisa boa não faz sentido. uma só vez não chega.
serás sempre a melhor, hel.
acho que até hoje continuei anestesiada com as noites inteiras de festa e com o álcool que ingeri nesses tempos. até hoje não senti minimamente a tua falta, sem ser em pequenas coisas. descansa, descansa, continuo sem sentir. mas pela primeira vez desde que acabou, despertas-te um sentimento aqui dentro. a vontade de te chamar filho da puta.

com todo o amor,
P.
já não consigo ser mais do que isto. um punhado de esperanças traídas e desgovernadas. eu não gosto de me tornar repetitiva, mas já o sou. é que isto já dura há 3 anos e nada muda. nada, nada, nada. é uma milésima partida de xadrez a cometer o mesmo erro básico.
eu só confio nas pessoas loucas, aquelas que são loucas pra viver, loucas para falar, loucas para serem salvas, desejosas de tudo ao mesmo tempo, que nunca bocejam ou dizem uma coisa vulgar, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas amarelas romanas explodindo como aranhas através das estrelas.
nessas ruas estreitas acompanho-te em busca de uma felicidade ainda desconhecida. tu tomarás um rumo nórdico e eu continuarei aqui, nesta minha existência sobre-voante. até um dia, foi bom ter-te conhecido.
fui feliz. tive dias grandes como eu gosto e em cada um deles desejei que tivessem mais de 24 horas pois o tempo passou-me depressa. tive um punhado de amigos que se embriagaram comigo para comemorar ou para esquecer. ouvi bon iver nos inicios da noite e tive um livro meio lido na mesa de cabeceira.
às vezes apetecia-me que gritasses comigo. que me abanasses freneticamente como quem abana um produto pronto a ser servido à mesa. apetecia-me que me perguntasses o que raio se passa comigo e o mais importante: que obtivesses essa resposta, coisa que ando a tentar obter faz agora quatro anos. boa sorte
estou ainda embabascada. não gosto desta palavra, mas estou farta de escolher  as palavras. tu sabes o meu nome e até conheces de cor o caminho para minha casa, mas não sabes a minha história. e não saberes a minha história devia silenciar-te para sempre. se voltares, já não estarei cá.
M. vai para a capital. fico contente por ela, mas pensar que estes são os últimos dias que cá estará deixa-me um nó no coração. é agora que vejo as coisas mais claramente.. já não somos mais aquelas pessoas que partilhavam sonhos depois das aulas, já não nos damos ao luxo de nos desprendermos de todas obrigações porque tínhamos medo delas e das suas consequências. nesta minha fase, a única coisa que me resta é deixá-la voar e deixar a minha mão ao seu dispor para quando ela quiser, eu estar aqui para lhe aparar o voo. m de marta, m de mundo. nunca mudará
cansada de me convencer que apesar do meu individualismo, estava a tal inevitabilidade a que nos submetemos e chamamos amor, pensei que, com todo o amor que sentia por ti, me iria suavizar e de alguma forma fazeres parte do meu equilíbrio, tornando-te subtilmente indispensável. nunca pensei enganar-me tanto. mas agora percebo que o meu amor por ti não foi uma inevitabilidade, mas uma escolha. sei que não vinha a fugir de nada, nem à procura de coisa nenhuma. acho sim, que já há muito tempo perdi uma parte de mim, e desde então fiquei incompleta e perdi também, quem sabe para sempre, a capacidade de adormecer nos braços de alguém sem que pense no perigo de ficar na armadilha do carinho, para todo o sempre.