eu sou aquela que fica à espera só porque fica bem, que obedece a um convite porque recusar é de mau tom. sou aquela que sorri sempre ao telefone para dar a sensação de boa disposição. sou rídicula, de facto.
tenho que confessar que espero sempre pelas oito da noite para receber uma mensagem tua. sinto falta das longas conversas que tinhamos nessas noites confusas e abafadas. sabias falar-me como ninguém. falavas interminavelmente sobre a vida, sobre o mundo, sobre as pessoas, como eu tanto gostava. na verdade, tenho saudades tuas e todos os dias me arranjo para te encontrar, ao acaso, num virar de esquina. nunca encontro.
tenho a certeza que vou ficar maluca outra vez. sinto que não conseguimos atravessar outra dessas terríveis fases. e eu não consigo recuperar desta vez. estou a começar a ouvir vozes e não me consigo concentrar. portanto vou fazer a coisa que me parece mais acertada. deste-me a maior felicidade possível. tu tens sido em todos os aspectos tudo o que alguém podia pedir. acho que duas pessoas não poderiam ter sido mais felizes juntas, antes desta horrível fase ter chegado. já não consigo lutar mais. eu sei que estou a estragar a tua vida e que sem mim consegues funcionar. e tu vais funcionar, eu sei. vês, eu nem consigo escrever isto apropriadamente. não consigo ler.  o que eu quero dizer é que devo-te toda a felicidade da minha vida. tens sido totalmente paciente comigo e incrivelmente bom. eu quero dizer isto - toda a gente o sabe. se alguém me pudesse ter salvado, terias sido tu. tudo se foi de dentro de mim, excepto a certeza da tua bondade. não posso estragar mais a tua vida. eu não acho que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós fomos. vw
e é estranho como não deixo de pensar, quando vejo woody allen a dizer isto, se será o mesmo que pensas de mim.
e foi hoje ao ler novamente uma conversa antiga em que eu afirmava que os rapazes eram todos iguais e de que não havia nenhum como aqueles que apareciam nos filmes de sábado à tarde, os que amam verdadeiramente, que esperam por nós, que se declaram como sempre quisémos, que me apercebi de que afinal há. na nossa vida, encontramos sempre rapazes desses. eles amam-nos, imenso, declaram o seu amor por nós e esperam pacientemente que façamos o mesmo. o problema é que geralmente nunca o fazemos.
estou farta de hesitações e disfarces. é por isso, que quando o amor um dia se lembrasse de bater à minha porta de novo, eu não queria hesitar. não queria olhá-lo pelo monóculo do outro lado do meu mundo, pensando se devia arriscar ou não. queria sinceramente abrir a porta de casa, e apertá-lo contra o meu peito e somente amar, amar e não perguntar nada em troca. mas tenho medo, demasiado medo.
preciso de uma boa razão para me deixar levar, uma boa desculpa para deitar tudo para trás das costas e ir contigo. adoro pessoas que vivem à beira do abismo, mas infelizmente, por vezes, reflicto em certos pormenores e vejo que não sou uma combatente dessa tripulação. queria tanto viver assim, o presente e nada mais, sem martirizes do passado. até onde irias para seres verdadeiramente feliz? eras capaz de saltar do teu comboio em andamento e voltar de novo para a estação de partida, a pé, e esperares por outro comboio, mas agora para um destino completamente diferente? por mais que tente, não consigo achar essa resposta.
ele estava do outro lado da rua e nao aconteceu completamente nada. ficaria sem fôlego apenas se levantasse o olhar. somos parvas, demasiado sensiveis. queria nem sequer responder-lhe às mensagens, ou dizer que amanhã tenho uma entrega de um trabalho muito importante. não sou capaz.
eu tenho muito medo de ser feliz. parece estranho, eu sei. mas eu explico-te: ser feliz tem minutos contados, e o meu medo centra-se naquele instante em que escorregamos para o abismo.
nunca soube falar-te mais do que em metáforas. foste sempre a única pessoa a percebe-las, por mais profissional que eu me tenha tornado a dizê-las. metáfora não é uma forma de subentendimento. aqui não ficam palavras por dizer ou sentimentos escondidos que alguém percebe. numa metáfora, diz-se tudo o que se tem a dizer, mas se possível duma forma mais bonita, mais delicada. como sempre entendeste as minhas, eu nunca te escondi nada, nem mesmo as piores coisas sobre mim que eu te contava por via metaforica. a essas chamavas-lhes de geniais e isso incitava-me a melhorar cada vez mais. melhorei imenso, quase profissional, e agora tenho medo que já não as consigas perceber. se não o fizeres tenho a dizer que não me percebes a mim também. é por isto que, por vezes, queria saber-te falar sem ser por metáforas. não queria dizer-te as coisas duma forma delicada, porque eu própria não o sou, mas a verdade é que já ambos estamos habituados a não ser de outra forma. se eu te dissesse agora: vai à merda, aposto que ainda me aplaudirias e genial, gritarias tu. é uma pena.
e não sabes tu, que por ti eu até fazia a dança da chuva. estou a tornar-me doentia, eu sei, mas não te preocupes meu amor, está tudo sob controlo. deixa-me só ler a tua última mensagem pela milésima quarta vez hoje que eu fico bem, prometo.
não acho justo que a melhor parte do meu dia seja quando te vejo. desaparece, a sério.
para que saibas eu tenho defeitos e manias. adoro pôr molhos em qualquer prato que como, por isso certamente vou gastar imenso dinheiro à conta da minha felicidade; acordo a maior parte das vezes rabugenta; ouço uma música cem vezes, se for preciso, desde que esteja nessa onda; gosto de ficar em casa um dia inteiro, a não ser que me convençam do contrário; sou viciada em bolos de arroz e só sei cozinhar crepes. achas que vamos ser felizes?
não, nem sempre é fácil. gostaria de poder dizer que, todos os dias quando acordo, há qualquer coisa garantida que me faz feliz mas não vejo hora disso acontecer. quando parece que o trilho se vai formando, há uma porção de pedras que o vão atropelando. sem saber, encontro constelações na noite, mas jamais as conseguirei descodificar.
isto até poderia ser uma metáfora, mas não é.
fez as malas e quis nunca mais voltar. não dobrou a roupa, apanhou-a à pressa numa bola de tecido. esqueceu-se completamente da roupa interior e exagerou levando todos os colares, todos os anéis, todos os brincos, todas as pulseiras. o Inverno é horrível - pensou - mas em Berlim vai estar pior.
apesar de ter a maior pressa em escapar daquele cubículo hediondo, não queria pensar sequer em deixar as suas colegas do ballet.
é no quase-calor das 15.00 marcadas no relógio do computador que me acho a pessoa mais sortuda do mundo. depois guardo todas as coisas na mala, enfrento o gelo da rua e quase corro para o carro. penso em ti - penso sempre em ti - e depois de ligar o rádio, acho que o nosso problema é de comunicação. nada mais que isso.
quando nos perdemos, pode levar algum tempo até que nos apercebamos disso. podemo-nos convencer, durante imenso tempo, que apenas nos afastámos do nosso caminho e que o vamos encontrar de novo a qualquer momento. então, a noite cai uma vez e mais outra, e ainda não fazemos a mínima ideia de onde estamos. aí, é a hora de admitirmos que estamos desnorteados e nos afastámos tanto do nosso caminho que já não sabemos sequer de que direcção nasce o sol. quem sabe acabemos por encontrar uma bússola no fundo da mala.
e só ontem me apercebi na quantidade de vezes que tenho vindo a pedir desculpa e na quantidade de pessoas que tenho vindo a magoar, não só recentemente, mas ao longo do tempo. tenho estado sempre cansada. desde que tenho memória, lembro-me de estar cansada de alguma coisa, de ter sempre algo que me canse e que me farte. bem, já não estou. já não estou cansada, nem farta, nem nada. estou bem, em paz de alguma forma. perdi muitas pessoas neste meu percurso e ouvi verdades duras, mas foram isso mesmo: verdades. não mudava quase nada do que me trouxe até aqui, tenho agora a certeza disso. desculpem. por tudo o que fui mas, que com orgulho, já não sou, desculpem.
sabes, gosto de fazer novos amigos, de ter a casa cheia sem me preocupar quem manchou o tapete. numa paz divina em que nada me ocupa, a não ser o amor que sinto por aqueles que se instalam na minha sala, no meu quarto ou na minha varanda virada para as estrelas. preencho-me com estes pequenos anseios porque gosto de sentir o cheiro de comida a ser preparada a invadir as outras divisórias da casa, porque me apaixona o som do rádio do outro lado da parede a fazer com que me eleve e tenha vontade de dançar e sorrir para os outros. é bom ter momentos assim.