as malas estavam arrumadas ao lado do sofá vermelho, a única coisa que sobressaia naquela sala branca. eram apenas duas e quando foram ali colocadas, transmitiu aquele sentimento de termos levado uma vida medíocre, tão medíocre que cabia em duas malas de tamanho médio. não se queria atrasar, mas também não queria chegar antes da hora para depois ter de ficar ao frio, portanto ia controlando o tempo pelo relógio de cuco. pegou no telefone e marcou rapidamente o número. esperou por uma voz do outro lado da linha e pediu um táxi. sabia que demoraria provavelmente 5 minutos e achou por bem começar a despedir-se. olhou pela sala, com a certeza que se tinha esquecido de alguma coisa importante mas desistiu de a procurar. o resto da casa estava vazia e o tempo por aí percorrido foram segundos, só os suficientes para ver uma última vez as esquinas e marcas nas paredes. passou pelo espelho enorme pendurado à porta de casa e sorriu, não porque estava feliz mas para ver como ficaria quando sorrisse ao encontrar alguém. saiu finalmente, já não aguentando sequer o cheiro que continuava ali impregnado e esperou calmamente pelo táxi. se passar um carro antes do ponteiro dos segundos chegar ao 8, é porque vai correr tudo bem. e um carro passava. e dali a pouco, repetia. se um carro passar, antes do ponteiro chegar ao 4, é porque esta foi a melhor escolha. e um carro passava. finalmente, foi o táxi a chegar e ela respirou tão fundo que sabia que não podia voltar atrás. entrou e fez o sorriso treinado. é para onde menina? , estação de comboios, stª apolónia. o táxi arranca e ela pensou se alguém daria pela falta dela, se alguém a procuraria. só depois teve a certeza que a única pessoa que quereria saber notícias dela desaparecera também. entenda-se isto não como vingança, mas como um acto de amor próprio.