esquece tudo o que viste ou que pensas sobre o mundo. e diz-me, aqui e agora, o que contém esta sensação súbita que se prega à nossa alma de querer alguém ao nosso lado, para todo o sempre.
durante a noite não tenho sonhado, durante o dia farto-me de o fazer. sinto-me inspirada por pequenas coisas, emociono-me facilmente e não consigo deixar de ouvir kings of convenience e bon iver. o que se anda a passar dentro do meu circuito cerebral? muita coisa. no entanto, por vezes compreendo que isto não é somente uma maré que vem como uma vaga solitária, sou eu em vez, isto é, sou eu assim todos os dias que queimamos num ano, a mesma eterna e irremediável. encontro-me sempre no rés-do-chão. lá os sonhos são mais abafados e cheios de poesia negra.
"galopamos ao longo da vida como artistas de circo equilibrados em dois cavalos lado a lado - um pé sobre o cavalo chamado destino, o outro sobre o cavalo chamado livre arbítrio. e aquilo que temos de equacionar todos os dias é qual dos cavalos está em causa, com qual deles posso deixar de me preocupar porque não está sob o meu controlo e qual precisa que eu o guie com esforço e concentração."
eu só queria ter um pouco mais de fé em mim. poder acreditar no amor a todo o instante e nunca parar de procurá-lo em cada esquina de uma rua. é que dou por mim, de vez em quando, a sentir um vazio desolador em tudo o que faço, sem que nada me consiga animar - nem um chocolate quente, nem mesmo uma mensagem dele. às vezes as coisas ficam sem graça, essa é a grande verdade.
parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. já ninguém quer viver um amor impossível. já ninguém aceita amar sem uma razão. quem quererá, afinal, um amor que nos roube a metade mais selvagem e inocente de nós? quem quererá, sem ser eu, um amor puro, estúpido, cego e doente?
fazia sombras chinesas com as mãos no lanço de escadas que começava à saída do seu quarto. sonhava um dia cruzar o mediterrâneo e tinha a parede forrada de livros. apaixonou-se, muito, e continua assim. e apesar de a cada dia que passa se fechar mais, mas amar mais, ninguém está a ver onde se está ela a meter. as dores de cabeça voltaram e as noites sem dormir também. mas ninguém sabe disso, pois sempre aprendeu a não se queixar quando tudo aparentava estar bem. mas alguém saberá distinguir um sorriso de um acto preciso à sanidade mental? não há certezas, pois continuar assim e a fazer sombras chinesas continua a ser a sua melhor opção. apaixonou-se, e isso.. isso diz tudo.
gosto de coisas simples depois de um dia cansativo. uma mensagem com um amo-te verdadeiro, uma tosta mista e um café de viena feitos a pensar em mim, ou mesmo um simples abraço de reconforto quando algo correu mal. afinal, do que sobrevive o amor a não ser destas pequeninas coisas?
"uma boa cena de amor deve ser sobre mais qualquer coisa para além do amor. por exemplo, esta. eu fixando um cacho de uvas. tu sentada aí, meia a dormir. ninguém, olhando para nós, conseguia dizer que estávamos apaixonados."
nem sempre adquirimos uma melhor visão do mundo. é como aquela humidade de janeiro que se instala na janelas das nossas casas, impedindo-nos de ver como a manhã nasceu lá fora. a chuva pode cair, a atmosfera estar cinza, as árvores a balouçar meticulosamente de um lado para o outro, desconhecidos em passo dançante a cruzarem-se frente a nossa casa, que nunca iremos saber que isso de facto aconteceu no mundo. aliás, ninguém parece importar-se com isso ultimamente. é como se todos os poetas tivessem vindo a morrer no decorrer destes anos sem terem deixado qualquer ensinamento aos boçais. é triste, mas às vezes até eu sinto que preciso de limpar a humidade dos meus vidros com a mão, abrir a janela e olhar um pouco para cada movimento que usualmente perdemos por estarmos fechados numa concha que não deveria ser nossa.
às vezes penso que a razão desta massiva infelicidade mundial reside no simples facto de nós pensarmos demais. pensamos demasiado nas horas, nos nossos espaços em vazio, nos fracassos e insucessos e no amor que não possuímos. pensamos e deixamos o tempo passar. do que nos servirá depois essa horas que desperdiçámos?
ela queria mudar. reunir todas as memórias falhadas e torná-las numa fonte de inspiração. queria ser mais espontânea, criar laços afectivos com maior facilidade, ganhar coragem para fazer aquilo que tem vindo a adiar, estar mais tempo com aqueles que se esqueceu de amar, fazer jantares para amigos sem se preocupar com a sua agenda, olhar para o mar mais vezes, começar a escrever poesia e, quem sabe, voltar a acreditar que a felicidade finalmente veio ao seu encontro.
eu só quero saber se terei com quem contar, com quem comer o pequeno-almoço, com quem ver as minhas séries preferidas, com quem caminhar o dia inteiro, com quem dormir uma sesta ou mesmo com quem falar nem que seja sobre o tempo. isto é, se terei com quem chorar quando sentir que estou longe e nada posso fazer, se quando me sentir magoada terei alguém para me guiar, se terei a quem comprar um presente quando for época de natal, se existirá quem me dê mais um abraço só porque sim. eu quero ter esta certeza absoluta que os meus dias serão passados com alguém ao meu lado, nem que seja só para sentir o calor do corpo de outro quando o frio começar a apertar.