espaços vazios têm uma forma peculiar de fazê-la sentir-se insuficiente: a sua alegria não é suficiente para apagar as sombras nos cantos da sala, a sua imaginação não é suficiente para pintar as paredes. enquanto ela estende os seus pensamentos para alcançar os cantos tentando fazer com que fiquem menos ameaçadores, menos intensos, ela desaparece como uma gota de sangue numa banheira. pensamentos que geralmente desaparecem rapidamente assim como desaparece a dor quando se tira um penso-rápido que há muito está na nossa pele. ela sente-se pequena, mais pequena que o habitual. como se os seus ombros se encolhessem sobre si próprios para escapar do frio, como se os seus pensamentos que constituem metade dela, se escondessem debaixo do tapete para tentarem desaparecer. 
eu estou num espaço vazio tentando também que os meus pensamentos queiram desaparecer. e está frio aqui. muito frio.
não estás perdida. apenas te esqueceste que não importa o que estás à procura. a única coisa que importa é que aqui estás. aqui.. porque lá, onde quer que estivesses que guardou aquilo de que estavas a fugir, não foi suficiente ou então foi demais para ti. fez-te cair, ou aprisionou-te, portanto tiveste que partir.
não estás perdida. saíste magoada para fugir de algo cansativo. não pensaste na parte que estavas prestes a encontrar algo novo. mas tu encontraste algo novo. encontraste isto. encontraste o chão que pisas agora. portanto, não estás perdida. não estás enganada ou errada, nem fora do caminho certo ou sendo simplesmente imprevisível. tu estás aqui. com tudo ou nada em frente a ti.
é a poucos que consigo explicar plenamente o porquê de gostar tanto de tom waits, quando sinistro é a primeira palavra que lhes vem à cabeça. lembro-me da primeira vez que o ouvi, temptation, cantava ele. foste tu que mo deste a conhecer, afirmando que eu ia ouvir algo como nunca tinha ouvido. apaixonei-me no primeiro instante e agora fazem anos que o ouço. é sempre no inverno que ele chega, nunca percebi bem o porquê de não gostar de o ouvir no verão mas presumo que seja pela leveza que ele não possui. acho que é a voz.. aquela voz que tu me falavas mesmo antes de eu o ouvir e quase que imitavas. mas ninguém consegue ser como ele, ninguém. dizias-me repetidamente, agora ouve esta, e esta e mais esta!. é a voz quase psicótica mas que nos atrai para o fundo do poço. e nem nos importamos de ser atraídos para aí. acho que gosto dele porque me faz lembrar de ti. fazes-me querer tanto afastar de ti como aproximar-me, tal e qual como ele. eu repito.. é da voz. aquela que me faz crer ser uma má pessoa a sussurar-me ao ouvido mas da qual não me consigo desprender. é, eu gosto disso nele. assim como gosto em ti.
o termo acabar com alguém tem tanto de forte como a real palavra o permite ser. é exactamente isso, acabar contigo/acabares comigo. fico eu/ficas tu na merda, completamente acabados. e nunca na realidade se acaba o que é suposto: a relação.
tenho o quarto a cheirar a canela e coloquei de novo o gira discos perto de mim. continuo sem acabar o livro que tenho à mesa de cabeceira, as coisas para arrumar acumulam-se mudando apenas de sítio conforme onde eu queira estar até finalmente ser impossível sentir-me confortável com a falta de organização, encontro nos dias de hoje uma satisfação ao ouvir janis joplin que pensava só encontrar no verão. está frio lá fora e cá dentro não difere muito. não consigo prestar muita atenção às pessoas, sendo facilmente distraída. vejo filmes atrás de filmes, e sinto-me bem. sozinha e bem.

verdade. mesmo verdade.

"Just because we don't talk doesn't mean I don't think about you. I'm just trying to distance myself because I know I can't have you."
revi-me em cada palavra.
eu não gosto de histórias. ficam sempre mal contadas e raramente se acabam. os contos de fada são a pior categoria. não suporto contos de fada. nunca se conta o que acontece ao vilão. a princesa vive feliz para sempre com o príncipe e isso faz-nos subentender que a história deles continua feliz tal e qual como a conhecemos. mas e ao mau da fita o que calha? é desterrado para um lugar qualquer sem nome, desaparecendo do mapa, rende-se e é humilhado perante o feliz casal, aprende a lição. mas e depois? ninguém é vilão para sempre. é por isso que não gosto dos contos. nunca contam a perspectiva de quem comete o erro e aprende com ele. nunca dizem que vai acabar por viver feliz para sempre também, e que eventualmente acabará por se sentir melhor e não se irá culpar todos os dias até à exaustão pelo que fez de mal. às vezes era bom ter um pouco de esperança para os maus da fita. só para mudar a rotina um bocadinho. 
não gosto quando as pessoas mudam. nem quando eu mudo. exacto, não gosto principalmente da segunda parte. não sei no que me tornei e tenho medo disso.
gostava que um amor pudesse sumir com a mesma bela forma com que surge, sem dramas nem problemas, apenas caminhos diferentes. mas isso nunca acontece. as pessoas nunca partem de forma fácil, nunca sem deixar uma ferida aberta em nós. odeio quando partem, é sinal que nunca pertenceram, que no fundo nunca desejaram ficar. 
if a man wants you, nothing can keep him away. if he doesn't want you, nothing can make him stay.
é sempre café de viena que bebo nas noites mais frias e parece que foi finalmente hoje que chegou a chuva. faz frio lá fora, os ossos estão a doer, enrolo-me em mantas e vejo séries enquanto devia estar a estudar. toca bon iver no quarto e nada me parece mais adequado para hoje. como os franceses o sabem, bon hiver. bom inverno.
a vida que vivo é irremediavelmente corrupta. não tem justificação. continuo a pensar que existe esta justificação que escrevi algures, num pedacinho de papel, mas esse está guardado na gaveta de alguma secretária em alguma sala de algum sítio que eu tenha vivido. mas o que é certo é que eu nunca irei encontrar esse pedacinho de papel, porque não há nenhum, não existe.
Wallace Shawn, Fever (Faber and Faber, 2009)
adeus tristeza, até depois. 
chamo-te triste por sentir que entre nós dois 
não há mais nada pra fazer ou conversar, 
chegou a hora de acabar.
fazias origami e falavas baixo porque dizias não gostar que as pessoas ouvissem a tua voz. essa era uma das coisas que mais gostava em ti. era profunda e parecia sempre arrastar-nos, puxar-nos mesmo num tema de conversa não tão interessante. andavas sempre com o teu caderno atrás para todo o lado e mergulhavas nos papéis já escritos e sujos de carvão a qualquer hora do dia. foi contigo que o bichinho de escrever, anotar o que quer que fosse, começou a crescer e foi por ti que ganhei o hábito de amontoar cadernos e cadernos cheios de pensamentos, histórias reais e pouco reais, ideias. sonhavas alto, dizias-me uma citação de um filme qualquer que te viesse à cabeça no meio de uma conversa absolutamente banal, rasgavas os pacotes de açúcar e fazias aviõezinhos de brincar. eras tão diferente em todos os aspectos e era isso que me fazia gostar tanto de ti. era a maneira como soltavas uma gargalhada sonora e atiravas a cabeça para trás. era a maneira como vias a vida e como me ensinaste a encará-la. era tudo isso que fazia de ti a pessoa que eu conhecia tão bem. conhecia, já não conheço.
mãos e queixo a tremerem e indicadores entrelaçados. foi assim que me encontraram naquela noite. estava a pedir aquilo que tinha pedido pouco tempo atrás mas não se concretizou. pedi com uma pestana que viste na minha cara e não sei porque ainda continuo a acreditar nisso. não sei porque continuo a acreditar em estrelas, em velas de aniversários e no número 11. até hoje pouco se concretizou, mas continuo a pedir o que quero em todas aquelas ocasiões que as pessoas dizem que se deve pedir. depois, no final, entrelaço os dedos, como se por magia ajudasse. não ajuda e não se concretiza. é pena, teria sido feliz.
não sei porque lhes chamo cartas de amor, quando as escrevo nos dias em que te odeio mais.
habitamos vidas, não nossas. a honra desta dança é de quem toca. tu convidas-me a dançar. passamos por onde ainda não passámos e quando dizes baixo que danço bem, solto um risinho e digo sempre que tu também. sabes que estamos a criar revolta, sabes que estamos a dançar e a fazer parar tudo à nossa volta. fazes-me girar nos meus calcanhares e com medo que o mundo se parta passamos a outra sala onde nos fazemos anunciar com a nossa segredada fala. todos olham os nossos passos, todos querem ser como nós, sabes? e agora, quando dizes baixo que danço bem, oh meu amor, eu sei que te amo e sei que tu também.
pintas as unhas com verniz azul, procuras as purpurinas e colas às pálpebras (quase uma a uma) com creme nivea. amanhã será outro dia, mas o que interessa é o agora. não penses no desmaquilhante que vais ter que utilizar, nem na acetona cor-de-rosa que gastarás. se não te desprendesses da escuridão da noite, dos gatos pretos com que te cruzas todos os dias ou das palavras agrestes que ouves nas ruas paralelas à tua, que seria de ti agora? se não com olhasses com afinco e esperança para a janela do teu amor de infância, se não descesses as escadas todas as manhãs à pressa, se não tivesses escutado com atenção as regras de todos os jogos que tentaste jogar. repito, que seria de ti agora?
fui ridícula. é a única palavra que encontro para me descrever nos últimos dias. no entanto, estou muito mais em paz hoje, muito mais calma e muito mais confortável. parece que desvalorizámos muito o desculpa entre nós, mas quero que saibas que o pedirei só mais desta vez, mas sem brincadeiras: desculpa. 
it always fascinated me how people go from loving you madly to nothing at all, nothing. it hurts so much. when i feel someone is going to leave me, i have a tendency to break up first before i get to hear the whole thing. here it is. one more, one less. another wasted love story. i really love this one. when i think that its over, that i'll never see him again like this... well yes, i'll bump into him, we'll meet our new boyfriend and girlfriend, act as if we had never been together, then we'll slowly think of each other less and less until we forget each other completely. almost. always the same for me. break up, break down. drunk up, fool around. meet one guy, then another, fuck around. forget the one and only. then after a few months of total emptiness start again to look for true love, desperately look everywhere and after two years of loneliness meet a new love and swear it is the one, until that one is gone as well. there's a moment in life where you can't recover any more from another break-up. and even if this person bugs you sixty percent of the time, well you still can't live without him. and even if he wakes you up every day by sneezing right in your face, well you love his sneezes more than anyone else's kisses.
Marion, 2 Days in Paris
entupo-me com filmes atrás de filmes para me impedir de mandar a mensagem que sei ser demasiado cedo para mandar. nunca me passou pela cabeça que podia errar tanto. nunca passa.
ela usava inverno no coração e mexia-se como primavera. era subtil, agradável e odiava ficar à espera. muito mais do que do amor, sabia da morte, tantas vezes que a vida lhe testou a sorte. ela sorria mesmo quando não queria, só para os outros não saberem o que sentia. amou a vida inteira, pequenas coisas que guardava na algibeira; amou a vida inteira, pequenas pessoas que lhe transformaram os sonhos em poeira. é hoje mais sábia e ponderada, moderadamente feliz mas profundamente marcada.
e faz hoje uma semana que as minhas estrelas se desalinharam. se antes andava perdida, agora já nem sei quem sou para dizer em que lugar me encontro: se onde deveria estar, se meio mundo afastada do correcto. desafiei leis que continha no meu intimo bem definidas, arrisquei, fui sincera com tudo e sofri todas as consequências que devia. apesar de tudo, contaria novamente sem pensar duas vezes se o tempo andasse para trás para me dar uma segunda opção. não escolheria a segunda, escolheria a que escolhi e me trouxe até aqui. as estrelas podem estar desalinhadas mas já encontrei uma constelação formada por outro par de estrelas que não o normal.
ouço patrick watson em modo replay e perco-me a pensar no momento em que receberei uma mensagem tua. estou triste e continuo a dizer que estou bem. não estou, não estou bem mas é bom pensar o contrário. sorrio para os outros, digo piadas e bato palmas porque "não faço barulho a rir" até parecer uma retardada. tenho momentos felizes na esplanada com amigos e no entanto sei que faltas lá tu, mesmo que não seja na esplanada, faltas tu no final do meu dia, na nossa mesa de piquenique, a falar-me da tua vida e a ouvires coisas da minha. faltas tu, exactamente como eras, na minha vida. é isso que acontece e enquanto não te tenho de volta, patrick continua a cantar para mim até se cansar. don't let yourself fall down.
o círculo é a única figura geométrica definida pelo seu centro. não há galinha nem ovo neste caso, o centro apareceu primeiro, a circunferência a seguir. a Terra, por definição, tem um centro. e só o louco que sabe isto é que pode ir onde quer, porque sabe que o centro o irá reter, impedir que voe para fora de órbita. mas quando muda a percepção do centro, e pela força centrífuga vem à superfície, vai-se o equilíbrio. o equilíbrio vai-se. o equilíbrio, minha linda, foi-se.

Sarah Kane, Falta in Teatro Completo (Campo das Letras, 2001)
voltei ao mesmo. espero por uma mensagem que não chega e talvez não vá mais chegar. espero por ti e sei que não voltas. eu não achei que fosse assim. 
meninas em caixas de vidro atrasam-se sempre. adormecem muito. comeram a maçã, picaram-se na roca, feriram-se na boca, nos dedos e no que sobrou de uma história. conta-se que acordam sempre no tempo certo para reinarem sobre quem se salvou apenas por as esperar no fim da espera. isto que se conta em surdina sobre os dois sentidos que pode ter um beijo é o que não se explica aos príncipes e às crianças.
apetecia-me nutella, às colheres, um abraço teu e não ter nenhuma mensagem no telemóvel que reclama desde manhã atenção que não consigo dar. apetecia-me muito dormir e não consigo, também.
ele gostava de a ver pintar as unhas, de modo desajeitado, mexendo ao mesmo tempo no telemóvel, mudando a música porque nunca gostava da que estava a dar, passando as folhas da revista e enquanto tudo isto, reclamando de deus não lhe ter dado o dom de pintar as unhas como deve de ser. ele gostava de a ver debater-se para fechar o frasco de verniz sem as unhas tocarem em lado algum e de a ver perder tempo a seguir a limpar os dedos que tinham mais verniz que a unha em si. ele apenas gostava de lá estar, nos momentos mais simples do dia dela, e ela.. ela gostava de o ter ali, a olhar para ela.
e às vezes eu só queria que tu pedisses desculpa. eu sei que não tens de o fazer, não erraste, mas era só o que eu queria. eu gosto de pedidos de desculpa, daqueles que nunca chegam atrasados, mas sim com arrependimento na cara e uma tarte de maçã nas mãos. portanto já sabes, pede agora.
por vezes sinto-me corroída pela dor de um amor que não tenho.
está-me só a apetecer comer um churro de chocolate e receber um beijinho na testa. há coisas que deviam ser simples e não são. é pena.
ao longo do tempo aprendi que quando esquecemos alguém não é proclamando isso aos quatro cantos do mundo que se torna verdade. por mais que digamos a toda a gente que ele é passado, que não o queremos ver mais, que já não o amamos, não estamos a ser sinceros. a verdade é que só o esquecemos, quando dentro de nós proclamámos isso, bem calmamente, em silêncio só para nós tomarmos consciência. eu tomei consciência disso há pouco tempo mas nada me soube tão bem. não é, porém, que deixo de agradecer por tudo o que de bom tive contigo. obrigada.
"o problema é esse. eu sou uma pessoa simpática, sou realmente simpática. se és simpático comigo, sou simpática contigo. e mesmo que não sejas simpático comigo, eu consigo ser simpática contigo. se apanhas o meu mau lado, aí sim, consigo ser uma verdadeira cabra. se me irritares, não te queixes depois. consigo ser sinceramente chata e irritante às vezes. consigo ser feliz, felicíssima. consigo estar triste. tenho a habilidade fantástica de passar de muito muito feliz para uma idiota deprimida. consigo ser impaciente. consigo ser uma pessoa realmente às direitas e dizer-te a completa verdade. não tenho qualquer tipo de problemas em fazer tal coisa. se achas que consegues lidar com isso, então sente-te à vontade para entrar na minha vida. se não consegues, então não entres."
às vezes, quando digo a verdade, digo que tenho medo de gostar para sempre de ti.