o nosso quase-amor foi como os animais que se encontram mortos à beira da estrada por infeliz destino. eu sei, eu sei, comparação demasiado rude, demasiado forte mas foi assim. nós sabemos que o pobre coitado lá está jazido, já o avistámos pelo canto do olho, às vezes com sangue inclusive, mas mal o carro passa, mal nós passamos pelo espectáculo, não conseguimos conter-nos a desejar ter visto melhor, a ter só dado mais um olhar. e tudo isto enquanto estamos profundamente angustiados e enojados. nós, meu amor, fomos assim. ou eu fui assim. já tinha visto, mesmo pelo canto do olho, que não eras certo, que estavas lá e eu não devia olhar mas não me prestei atenção. passei rapidamente pelo teu espectáculo que já era tão pouco teu como meu, e até hoje a única pessoa a quem eu continuava a querer prestar atenção era a ti. mas, meu querido, eu que até estava profundamente angustiada e enojada, deixei-me disso. já não pretendo dar só mais um olhar, a ter-te visto melhor e com outros olhos. deixei-me disso, repito.