chega um dia em que colocamos tudo em causa, isto porque o azar chegou em má altura. mas afinal há uma boa hora para ele chegar? não sei. não sei nada. adormeço todos os dias a pensar no dia em que estarei um pouco melhor. acordo sem a mínima vontade de assistir a aulas que já venceram a data de validade. tive os dias mais tristes, o nó no peito, a retoma dos comprimidos. mesmo assim, ainda penso: talvez ainda venhamos a ser felizes - impressionante a capacidade optimista do ser humano.
quero outra vida, outras pessoas, outro corpo, outra linha de raciocínio. permaneceriam apenas as minhas melhores amigas.
sou uma pessoa que nunca está satisfeita totalmente. há sempre um vazio a preencher. vivo constantemente numa corda bamba vertiginosa. coração nas mãos, alma desfeita. um dia haverá uma forma de nos esquecermos de tudo. de olharmos para sítios e não nos lembrarmos de pessoas importantes que por um motivo ou por outro já não existem nas nossas vidas. haverá forma de camuflar a tristeza. limpar as lágrimas apenas em momentos perfeitos.
se caíres no esquecimento, deixa-te ficar, porque sair de lá é como fugir de casa na véspera de natal. se te deixarem, não tentes correr atrás: sai, solta o cabelo e finge que nem reparaste que ninguém te ligou. as pessoas só amam aquilo que perdem. não voltes para ninguém, não perdoes, não esqueças. porque fazê-lo é como voltar para casa quando o natal acaba. inútil.
hoje queria uma praia só minha, um sol enorme no corpo e uma noite estrelada no céu. uma mensagem tua no meu telemóvel a dizer 'gosto mesmo muito de ti' e um prato de crepes acabados de fazer. a certeza de que, afinal e apesar de tudo, ainda há coisas boas que acontecem.
não sei porque gosto tanto de ti, se a tua lista de defeitos é maior que a de qualidades. se nunca me disseste nada que realmente valesse a pena. se nunca me acariciaste o rosto com verdadeira doçura. não sei porque demoro a adormecer, porque demoro a desistir de um fim que jamais terá início.