não consigo dizer nada - e tu sabes o quanto eu gostava de dizer. simplesmente os dias ficaram mais escuros e até chico buarque já se cansa de cantar para mim. sinto-me vazia. mas um vazio talvez menos estranho que o último. do mal o menos.
boneca de porcelana com pernas cor de leite intermináveis. 16 anos com aparência de 40 devido a todo o peso que assombra a sua frágil figura. ele está mesmo em frente a ela, oferecendo-lhe os seus braços como protecção contra o mundo e ela está tão cansada.. abraça-se a ele como se fosse o último ser humano à face da terra pronto a dar-lhe o conforto que ela precisa.
o sol nasce lentamente com rosas e amarelos à mistura, um espectáculo a que ela gosta de assistir por saber que poucos o fazem. tem o coração longe do sítio onde o pousou pela última vez, entre aqueles pulmões que não lhe pertenciam mas que respiravam o seu mesmo ar e inspiravam e expiravam exactamente ao mesmo tempo que os seus, sem se atrasarem ou adiantarem sequer um segundo. agora o seu pequeno está longe, a bater descompassadamente sem pessoa que o guie, sem melodia que o acalme. deve-se encontrar tão amedrontado quando ela própria está.
boneca de porcelana que sonha todas as noites que alguém encontra o seu bem mais precioso e cuida bem dele como se de um órfão se tratasse. quem sabe tempos mais tarde as buscas dêem frutos e ela se reencontre com ele, sarado, cicatrizado, muito mais sábio e destemido e no fundo, em todas as suas células, válvulas e aurículas, em paz e feliz.
quanto mais vais sabendo mais curtos ficam os dias. estamos parados e a água vai subindo. primeiro pelos calcanhares. depois pelos joelhos, pela cintura e quando damos por nós estamos com ela por aqui. e começas a ter medo. medo do escuro.
ela continuava a sonhar com ele nas noites mais frias e a agarrar-se aos joelhos para doer menos. continuava tão magoada que já não sabia a partir de que ponto eram lágrimas de tristeza ou de raiva. acontecia-lhe muitas vezes. até que chegou uma noite em que não sentiu necessidade de pedir a tudo de divino no qual não acreditava que a ajudasse a parar com a dor. não que tenha desaparecido, ainda está lá todos os dias para lhe lembrar como foi, mas deixou de chorar. agora só se agarra aos joelhos para não sentir o coração a doer mais novamente.
naquela noite ficámos parados durante o máximo de tempo possível em frente à montra da loja de movéis para casas. admirávamos os cenários que criaram e imaginávamos que aquela seria a nossa casa. tinhamos uma sala espaçosa com um plasma, um quarto como sempre desejei e direito a outra cama, tudo tamanho de gigantes. o cenário montado da casa imaginária fazia sentir-me pequenina, mas um pequenina da mesma forma como me sentia nos teus braços, daquele segura e confortável. viamos o nosso reflexo no vidro da montra, abraçados e a imaginar o nosso futuro por tempo suficiente para sabermos que éramos felizes. não nos engánamos, nós éramos felizes. tínhamos pausas com direito a intervalos extras de tanta felicidade. o que sobrou é que não foi muito.