gosto de reler livros. não passaria sem café de viena e chico buarque a acompanhar. nunca andei com alguém tempo suficiente para saber o que seria amar sem fronteiras e isso faz-me sentir insensível quando deveria fazer-me sentir forte e independente. às vezes sussurro quando não preciso só porque gosto da maneira como o ar passa entre os meus dentes. apaixono-me por toda a gente que conheço apenas para me desapaixonar logo no dia seguinte. simples.
é um amor que não é amor. mas eu não minto, sinto-me bem. um abraço tão discreto que ninguém dá por ele. um sorriso de meio segundo apanhado por fracções de tempo. ando sempre a tentar não tropeçar, sempre com medo que se der uma queda já não me levante e agora isso anda mais intensificado. seguro-me por enquanto contigo, enquanto cá estás na minha vida porque toda a gente parte um dia. mas repito, baixinho, baixinho, de modo a que me ouças sem distracções e sem cometer erros: isto é um amor que não é amor. promete-me que não te esqueces disso, nunca, por momento algum. promete-me.
é estranho como no final, o verão parece sempre escapar-nos entre os dedos. este mais do que qualquer um evaporou-se sem ninguém dar conta. perdeu-se em dias enfiados na cama devido à preguiça, em tardes em casa de amigos a fazer tudo e coisa nenhuma, em noites de que a memória é pouca ou nula. perdeu-se em livros que se deviam ter acabado de ler e não se leram, em pores-do-sol que deviam ter sido assistidos e ficaram sem espectadores, em conversas que foram adiadas. tudo é novo agora e não sei o quanto isso será extremamente assustador. continuo a pensar que ando bem em cordas de equilibrista e, se cair, levanto-me mas prendo-me sempre a pensar no dia em que não será assim. estou com medo porque agora tudo é estranho. o verão escapou-se-me entre os dedos.
'tanto ruído no interior deste silêncio: são as vozes dos outros a falarem em mim, pessoas de quem gostei, pessoas que perdi, gente que tenho ainda. não me parece que herdei muito dos meus pais, dos meus avós: algumas coisas mais ou menos superficiais mas lá no fundo nada. princípios, claro. regras. o resto, quase tudo, fiz sempre sozinho. e estive sozinho nos momentos mais difíceis da vida.'
antónio lobo antunes
lembro-me do netinho a cantar milla. a música entrava pela tua janela, infiltrava-se no escuro do quarto e fazia-me deitar lágrimas de felicidade. estávamos agarrados e lembro-me de pensar que seríamos felizes para sempre. cantávamos felizes, inebriados com o espírito do carnaval, sem preocupação alguma sem ser o que era real e se deparasse no momento. amei-te tanto m. foste tanto para mim que não sei se alguma vez chegámos a ser duas pessoas em vez de uma como éramos no meu pensamento. eu perdia-me em ti e tu em mim, embora saiba hoje que nunca foi saudável. sei que pensei demasiadas vezes que íamos sempre resolver os problemas e viver mais felizes do que o dia anterior. foi o m.? perguntavam-me. sim sim, mas já passa, respondia sempre com um sorriso. vivi metade dum ano a tentar resolver as nossas coisas. e tudo me parecia possível sabes? não havia discussão que não se resolvesse, não havia conversa que fosse em vão. sonhava tanto e na altura o que me parecia perfeito, parece-me agora tão sem sentido.. chorei de todas as vezes que viravas costas por não conseguires ser transparente e dizer as coisas que todas precisamos de ouvir. mas da última vez fui eu que virei costas. acredita que fui bem transparente e acredita também que não deixei nada por dizer que desta vezes fosses tu a precisar de ouvir.
no coração ficou, lembranças de nós dois.