a vida que vivo é irremediavelmente corrupta. não tem justificação. continuo a pensar que existe esta justificação que escrevi algures, num pedacinho de papel, mas esse está guardado na gaveta de alguma secretária em alguma sala de algum sítio que eu tenha vivido. mas o que é certo é que eu nunca irei encontrar esse pedacinho de papel, porque não há nenhum, não existe.
Wallace Shawn, Fever (Faber and Faber, 2009)
adeus tristeza, até depois. 
chamo-te triste por sentir que entre nós dois 
não há mais nada pra fazer ou conversar, 
chegou a hora de acabar.
fazias origami e falavas baixo porque dizias não gostar que as pessoas ouvissem a tua voz. essa era uma das coisas que mais gostava em ti. era profunda e parecia sempre arrastar-nos, puxar-nos mesmo num tema de conversa não tão interessante. andavas sempre com o teu caderno atrás para todo o lado e mergulhavas nos papéis já escritos e sujos de carvão a qualquer hora do dia. foi contigo que o bichinho de escrever, anotar o que quer que fosse, começou a crescer e foi por ti que ganhei o hábito de amontoar cadernos e cadernos cheios de pensamentos, histórias reais e pouco reais, ideias. sonhavas alto, dizias-me uma citação de um filme qualquer que te viesse à cabeça no meio de uma conversa absolutamente banal, rasgavas os pacotes de açúcar e fazias aviõezinhos de brincar. eras tão diferente em todos os aspectos e era isso que me fazia gostar tanto de ti. era a maneira como soltavas uma gargalhada sonora e atiravas a cabeça para trás. era a maneira como vias a vida e como me ensinaste a encará-la. era tudo isso que fazia de ti a pessoa que eu conhecia tão bem. conhecia, já não conheço.
mãos e queixo a tremerem e indicadores entrelaçados. foi assim que me encontraram naquela noite. estava a pedir aquilo que tinha pedido pouco tempo atrás mas não se concretizou. pedi com uma pestana que viste na minha cara e não sei porque ainda continuo a acreditar nisso. não sei porque continuo a acreditar em estrelas, em velas de aniversários e no número 11. até hoje pouco se concretizou, mas continuo a pedir o que quero em todas aquelas ocasiões que as pessoas dizem que se deve pedir. depois, no final, entrelaço os dedos, como se por magia ajudasse. não ajuda e não se concretiza. é pena, teria sido feliz.
não sei porque lhes chamo cartas de amor, quando as escrevo nos dias em que te odeio mais.