respirei fundo e contei mais um ano. 3, já lá vão 3 e ainda sinto a água na garganta como se tivesse sido ontem. ainda arranha, às vezes, ainda sufoca. 
respirei fundo e entrei novamente no mar, com o maior respeito que aprendi a ter. durante três anos, não há uma única onda em que eu mergulhe sem me lembrar da cara dele, a abanar a cabeça em sinal de desistência quando viemos finalmente ao de cima. 
já se foram 3 anos e parece-me ter sido ainda ontem que ele nadou no sentido contrário.
um dos finais pior interpretados. tal e qual como o nosso.

The Graduate, 1967
arranjo-me como se te fosse encontrar ao virar da esquina. e às vezes, mais vezes do que gosto de admitir, abrando o passo, caminho calmamente como se estivesses naquela ou na outra varanda, como se fosse esbarrar contra ti ao saíres da porta dum prédio, como se estivesses num carro parado, como se cortasses naquela rua e me tivesses visto antes de eu te ver a ti, como se ficasses parado, só a olhar para mim, de passo abrandado, à espera de te encontrar.
mostra-me do que és capaz. foi o que eu te pedi na madrugada em que me disseste para deixar a varanda aberta porque ias entrar no quarto por lá quando voltasses. 
eu nunca vou entender porque continuamos a voltar para casa querendo ser de alguém, ainda que estejamos um ao lado do outro. eu nunca vou entender porque é que tu és exactamente o que eu quero, eu sou exactamente o que tu queres, mas as nossas exactidões não funcionam como conta de mais… mas aí, daqui a uns dias… vais-me ligar. querendo ir tomar aquele café de sempre, querendo esconder-me como sempre, querendo amar-me só enquanto podes vulgarizar esse amor. querendo-me no escuro. e eu vou aceitar. não porque sou idiota, não me dê valor ou não tenha nada melhor para fazer. apenas porque lembras-me o mistério da vida. simplesmente porque é assim que fazemos com a nossa própria existência: não entendemos nada, mas continuamos insistindo.
tati bernardi